segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Dia 31 foi um dia muito diverto lá casa


30 de março de 1964, foi um tal de comprar comida, coisa gostosa, muito feijão, acho que nunca vi tanto feijão lá casa, lata de biscoito Aimoré, leite condensado, chocolate. Mas para que compraram um fogareiro “Jacaré”? Lá em casa tinha fogão? Não era um fogão grande, de seis bocas, mas era bem bom. Para que um fogareiro em plena Copacabana e num apartamento? Nunca acampamos, não fazíamos viagens de aventura. Para que um fogareiro? O pior ninguém me explicava. A resposta foi: pode precisar.
O que mais me intrigou naquele dia foram os cochichos, tudo foi feito para eu não ouvir nada. O problema era comigo. Porque?
Meu pai então, não largava o telefone, olha que ele detestava ficar conversando muito tempo no telefone. “Conversa é bom pessoalmente, telefone só pra recado.”
Meu pai gostava de uma prosa e conversar sobre História. Acho que aprendi a gostar de História com ele.
Sem eu estar com asma minha mão falou para eu não ir à escola, pior que não pude nem ir à praia para aproveitar o dia, que se não me esqueci, era de sol, mas estava nublado. Adorava praia. Nadava até o fundo só pra ver o Cristo por trás dos prédios. Nessa época não fazia isso ainda, eu tinha 8 anos, nesse trinta  de março. Fiquei em casa o tempo todo. Isso foi chato.
Minha mãe ocupada em organizar tudo. Ela não pode ser chamada de uma mãe clássica para os padrões dos anos 50 e 60: não sabia costurar, cozinhar, passar nem se fala, abrir lata, até hoje não sabe. Mas é ótima gerente. Lá em casa sempre tinha de tudo. Tudo muito organizado. Açúcar cândi no domingo, sempre tinha.
Domingo era ótimo; lasanha não faltava, com muito molho, uma delícia, Coca cola,  Tijolinho sorvete chocolate, bolo de chocolate com calda escorrendo.
Não éramos uma família tradicional, nessa época meus pais “ficavam”, acho que foram eles que inventaram o ficar. Forma de relacionamento descompromissada da década de noventa. Meu pai morava em Goiânia e nós, as minhas irmãs e eu no Rio com a minha mãe. Eles dormiam juntos quando ele vinha, aí ficava um tempão sem ele aparecer, quando voltava era a mesma coisa. Julho e dezembro sempre voltávamos à Goiânia: as féria eram sagradas. Minhas irmãs estudavam no Sacré Coeur de Jèsus, lá no alto da Boa Vista, me dava uma certa inveja, 180 meninas para brincar, faziam o dava na telha, eu pensava. Naquela época era usual as famílias que queriam uma boa formação colocarem os filhos nos internatos. Prática considerada atualmente de fascista.
Ouvia sempre essa frase: não se economiza com saúde e educação. Coerentes com essa proposta, meu pais que moravam nessa época em Goiânia, mandaram as meninas para o Rio. Que maldade... duas garotas criadas na rua 25, brincando na rua, soltas, completamente soltas. Goiânia naquela época era uma cidade pequena, vizinhos se conheciam e entravam sem avisar uns nas casas dos aos outros. As portas só se fechavam à noite.
As ruas eram de pessoas sem medos. Menos eu. Morria medo do Zé Doidim, era muito feio, andava com um saco nas costas, dormia no coreto na Praça do Correio. Tinha medo de ele me pegar. Não gostava nem de olhar a cara dele. Morria de medo. Mas mesmo assim tentava brincar na rua com as crianças mais velhas. Era uma delícia. Até botarem os pequenos pra correr quando completava o time. Nossas vidas mudaram para sempre.

Cap III Natal e Tangos

Cap III Natal e Tangos

Natal e tangos foram sinônimos na minha infância.
Tio Pedro, casado com Gercina, irmã das mais velhas de meu pai, os adorava.
Nos áureos tempos do tango e dele, lá por volta dos anos 30 e quarenta, chegava a ir à Buenos Aires. Buenos Aires era muito longe. Pegava-se trem ou ia-se de cavalo até Santos. Estou falando de Goiás Velho ou Rio Verde, Goiânia a nova capital do estado foi inaugurada em 42. De navio chegava-se, viagem longa e lenta.
O tempo não tinha a pressa, as pessoas não tinham urgências.
Nem por isso era tudo calmo.
Grande ebulição política, mudanças a toda hora. Guerras, conflitos nacionais e internacionais.
O comunismo existia de forma pungente, como promessa e realidade brasileira.
Em 37 ou 36, Natal vivenciou uma comuna, Goiás tinha o Formoso, agrovilas socialistas. Getúlio, ditador, herói, para alguns, caudilho, mãe dos pobres e pai dos ricos.
Mundo de contradições, debates acalorados em todos os conhecimentos, física, química, biologia. A promessa da relatividade do século IXX se materializou: Eisemberg, News Born, criaram as possibilidade para uma bomba nuclear, na época chama-se atômica. Átomo se divide e as certezas acabam.
Foi nesse clima com essas contradições que fui criada.
Ouvi desde pequena debates acalorados de filosofia à religião, passando pela politicagem mais chula praticada no planalto ainda nos anos 50.
Adorava..... ficava lá, muito palpiteira que sou, muitas vezes dava minha opinião. Que petulância!
A casa da tia Gercina não fechava nunca, sempre tinha pão de queijo pra todo mundo.
Sebastiana fazia pão de queijo toda hora, delícia!
Muito tempo depois fui entender que prática era aquela.
Mas todo natal pedia ao tio Pedro: “me ensina tango”... até hoje me emocionam.
Música tem esse poder arrebadador.
Tango e dramas nas telas tranportam-me.
Tio Pedro, foi intervetor de Goiás nos anos 30, destituiu os Caídos, oligarquia conservadora goiana, “vanguarda” da UDR- União Democrática Ruralista, o que há de pior na política até hoje.

Dia 31 de Março foi muito divertido lá em casa

Cap II A Família
Tínhamos uma irmã de criação, Maria, ela foi lá para casa com 4 anos. Contam que a mãe dela era pobre e dava os filhos. Maria era estranha. Estudava em bons colégios, mas considerados mais fáceis. Mas não passava de ano, tinha muita dificuldade.
Essa categoria de filho de criação é muito estranha, não é filha adotiva, mas também não é empregada, fica no meio, meio serviçal, meio da família, não convivi muito com ela. Quando eu era pequena ainda, ela se envolveu com um cara, que a prostituiu, e seduziu para furtar as jóias da minha mãe. O plano deu certo.
Ela não quis ir à Goiânia no Natal, como sempre fazíamos. Preferiu ficar, o pretexto era o vestibular. Quando voltamos não havia mais nada na gaveta. Tudo foi descoberto com uma certa rapidez, meu pai escondeu a Maria em Mato Grosso, nós não queríamos que ela fosse responsabilizada, ela foi um joguete na mão do salafrário. Esse sim foi preso, uma parte das jóias foram encontradas.
Maria tinha todas as doenças venéreas, AIDS não existia. Sabe-se que neuroticamente ele repete o que a mãe fazia, só que não dá, vende os filhos. Diz-se que há alguns até em Portugal. Sônia, minha irmã mais velha e meu pai ainda tiveram algum contato com ela. Eu nunca mais vi.
Temos também uma irmã oculta, pelo menos para mim. É filha do meu pai. Eu não a conheço. Nem no enterro do meu pai ela foi vista. Acho que não tive esse desejo de conhecê-la porque tomei para mim as dores da minha mãe.
Minha mãe teve muita dificuldade de engravidar perdeu muitos filhos antes de completar a gestação. A minha irmã desconhecida, é mais velha que a Sônia. Meu pai pulava a cerca no meio de tanta dor da minha mãe e antes mesmo de fazer 5 anos de casada.
Meu pai aliás era uma figura, só convivi diariamente com ele até os 5 anos.
Ele era “um gente boa”, gostava de conversar, política adorava, incluindo a internacional. Era um cara super talentoso. Era professor de matemática, fundou a universidade de odontologia do Goiás, era professor de cirurgia, fez farmácia, era junto com odontologia, grande administrador, foi presidente do Banco de Goiás, sócio da maior revendedora de wolks de Goiás. Bom vivant, gostava de comer bem, de sair à noite, fumante, bebia pouco, tinha enxaqueca. Era uma pessoa afetuosa, mas de poucos gestos de carinho. Nunca vi meus pais se abraçando ou beijando. Meu pai seria um ótimo amigo, se não fosse pai. Era ausente, vinha pouco ao Rio, me via muito pouco. Tive amigas que não o conheceram.
Sônia, minha irmã mais velha, foi uma referência para mim até virar psicanalista. Outra Sônia nasceu daí. A psicanálise lhe roubou o afeto. Eu a considerava tanto quanto a minha mãe. Adorava ir à sua casa, em Goiânia. Ela é onze anos mais velha, casou cedo e foi morar em Goiânia, eu tinha 11 anos. Ficou 30 anos casada com o João, pessoa controversa, boa, autoritária e alcoólatra. Não era um alcoólatra clássico. Tinha as suas nuances. Gosto dele, mesmo tendo muitas dificuldades de relacionamento. Sônia preparou a separação por longos anos... fermentou essa dor enorme destilada durante anos com a as teorias psicanalíticas, tinha vontade ser, de ter um ego próprio não mediado. Transformou-se numa pessoa dupla face: a Soninha doce e meiga com as amigas, seca e egoísta comigo. Essa perda talvez tenha sido uma das que me incomoda atualmente. Conviver com esse gelo é difícil e muito dolorido. Re-ver uma imagem de irmã, reescrever outra história, bem mais feia e cruel não é fácil.
Tento lidar com isso diariamente.
Iza, nunca a considerei louca, e sim portadora de um mal. Mas desde sempre não tínhamos pontos de convergência. Temos um relacionamento de motor sem óleo, não anda, as peças se encaixam mal. Não sei o que sinto por ela. Uma enorme compaixão, talvez.
Dona Zilah, minha mãe, foi a com quem mais convivi. Temos profundas identidades, banhadas por diferenças. Ela contida, reprimida, com uma vida interior intensa. A mim dedica enorme carinho. Uma pessoa admirável com uma mente difícil e com uma alma ferida. Ferida pela vida que teve, pelas enormes dificuldades que enfrentou. O irmão que mais gostava suicidou-se, a filha mais inteligente é doente. A par de tudo isso quando estava entre os seus pares era irônica, com uma cervejinha tornava-se divertida. Adorava carnaval, lança perfume, estudar estudar estudar...