segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Dia 31 de Março foi muito divertido lá em casa

Cap II A Família
Tínhamos uma irmã de criação, Maria, ela foi lá para casa com 4 anos. Contam que a mãe dela era pobre e dava os filhos. Maria era estranha. Estudava em bons colégios, mas considerados mais fáceis. Mas não passava de ano, tinha muita dificuldade.
Essa categoria de filho de criação é muito estranha, não é filha adotiva, mas também não é empregada, fica no meio, meio serviçal, meio da família, não convivi muito com ela. Quando eu era pequena ainda, ela se envolveu com um cara, que a prostituiu, e seduziu para furtar as jóias da minha mãe. O plano deu certo.
Ela não quis ir à Goiânia no Natal, como sempre fazíamos. Preferiu ficar, o pretexto era o vestibular. Quando voltamos não havia mais nada na gaveta. Tudo foi descoberto com uma certa rapidez, meu pai escondeu a Maria em Mato Grosso, nós não queríamos que ela fosse responsabilizada, ela foi um joguete na mão do salafrário. Esse sim foi preso, uma parte das jóias foram encontradas.
Maria tinha todas as doenças venéreas, AIDS não existia. Sabe-se que neuroticamente ele repete o que a mãe fazia, só que não dá, vende os filhos. Diz-se que há alguns até em Portugal. Sônia, minha irmã mais velha e meu pai ainda tiveram algum contato com ela. Eu nunca mais vi.
Temos também uma irmã oculta, pelo menos para mim. É filha do meu pai. Eu não a conheço. Nem no enterro do meu pai ela foi vista. Acho que não tive esse desejo de conhecê-la porque tomei para mim as dores da minha mãe.
Minha mãe teve muita dificuldade de engravidar perdeu muitos filhos antes de completar a gestação. A minha irmã desconhecida, é mais velha que a Sônia. Meu pai pulava a cerca no meio de tanta dor da minha mãe e antes mesmo de fazer 5 anos de casada.
Meu pai aliás era uma figura, só convivi diariamente com ele até os 5 anos.
Ele era “um gente boa”, gostava de conversar, política adorava, incluindo a internacional. Era um cara super talentoso. Era professor de matemática, fundou a universidade de odontologia do Goiás, era professor de cirurgia, fez farmácia, era junto com odontologia, grande administrador, foi presidente do Banco de Goiás, sócio da maior revendedora de wolks de Goiás. Bom vivant, gostava de comer bem, de sair à noite, fumante, bebia pouco, tinha enxaqueca. Era uma pessoa afetuosa, mas de poucos gestos de carinho. Nunca vi meus pais se abraçando ou beijando. Meu pai seria um ótimo amigo, se não fosse pai. Era ausente, vinha pouco ao Rio, me via muito pouco. Tive amigas que não o conheceram.
Sônia, minha irmã mais velha, foi uma referência para mim até virar psicanalista. Outra Sônia nasceu daí. A psicanálise lhe roubou o afeto. Eu a considerava tanto quanto a minha mãe. Adorava ir à sua casa, em Goiânia. Ela é onze anos mais velha, casou cedo e foi morar em Goiânia, eu tinha 11 anos. Ficou 30 anos casada com o João, pessoa controversa, boa, autoritária e alcoólatra. Não era um alcoólatra clássico. Tinha as suas nuances. Gosto dele, mesmo tendo muitas dificuldades de relacionamento. Sônia preparou a separação por longos anos... fermentou essa dor enorme destilada durante anos com a as teorias psicanalíticas, tinha vontade ser, de ter um ego próprio não mediado. Transformou-se numa pessoa dupla face: a Soninha doce e meiga com as amigas, seca e egoísta comigo. Essa perda talvez tenha sido uma das que me incomoda atualmente. Conviver com esse gelo é difícil e muito dolorido. Re-ver uma imagem de irmã, reescrever outra história, bem mais feia e cruel não é fácil.
Tento lidar com isso diariamente.
Iza, nunca a considerei louca, e sim portadora de um mal. Mas desde sempre não tínhamos pontos de convergência. Temos um relacionamento de motor sem óleo, não anda, as peças se encaixam mal. Não sei o que sinto por ela. Uma enorme compaixão, talvez.
Dona Zilah, minha mãe, foi a com quem mais convivi. Temos profundas identidades, banhadas por diferenças. Ela contida, reprimida, com uma vida interior intensa. A mim dedica enorme carinho. Uma pessoa admirável com uma mente difícil e com uma alma ferida. Ferida pela vida que teve, pelas enormes dificuldades que enfrentou. O irmão que mais gostava suicidou-se, a filha mais inteligente é doente. A par de tudo isso quando estava entre os seus pares era irônica, com uma cervejinha tornava-se divertida. Adorava carnaval, lança perfume, estudar estudar estudar...

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